TIRIRICA,
ANALFABETO...OU NÃO?!
(Escrevi logo após a eleições 2010).
Prólogo:
Independentemente do resultado do julgamento do caso
Tiririca, se sua homologação como deputado federal, eleito pelo voto (e ponha
voto nisso!!!) será impugnada ou não, o fato volta a suscitar, pelo menos em
mim, a dúvida que me fez, há alguns anos atrás, enviar uma carta a uma deputada
federal e ex-prefeita de São Paulo sugerindo um debate para essa questão. Nessa
carta anexei o texto (leia abaixo), que foi também publicado em um jornal da
colônia japonesa.
O ANALFABETO
Em minha passagem pelo Japão, onde trabalhei como
“dekassegui”, entre muitas coisas que aprendi, foi um fato que me marcou, logo
que lá cheguei: ali, eu era um analfabeto! Afinal, o que é ser analfabeto?
Segundo o Aurélio “aquele que não conhece o alfabeto, aquele que não sabe ler e
escrever”. Cita o ilustre professor, em seu dicionário, o trecho de um livro de
Graça Aranha, onde este diz “E que fez Russeau? Quase analfabeto até os trinta
anos, começa a escrever aos trinta e cinco...”. Bem, voltemos à minha
experiência na terra dos meus ancestrais.
Além do meu
conhecimento apenas superficial da cultura japonesa, não entendia, não falava,
e muito menos lia, infelizmente. (Nasci logo após o final da II Grande Guerra e
meu pai foi um dos que, com mais conhecimento da realidade, sofreu perseguições
violentas dos “vitoristas” (estes acreditavam que o Japão estava vencendo a
guerra) e que, como outros naquela situação, preferiu obedecer às ordens
vigentes, não insistindo com os filhos para que aprendessem sua língua natal, e
assim preservou nossa família.
Com essas
limitações, tive muita dificuldade em me adaptar ao país, mas, com muita
vontade e alguma dedicação nas horas de folga, aprendi a falar algumas frases
em japonês e a ler a sua escrita mais simples – o hiraganá e o katakaná. Essa
leitura, embora básica, ajudou-me bastante pois muitos avisos, anúncios e
placas de orientação são escritos com esse silabário, quando não, subscritas
nos “kanjis” (ideogramas, uma escrita e leitura mais avançadas, difíceis).
Os dicionários
definem que para ser considerado alfabetizado o cidadão tem que saber ler e
escrever. O coitado do matuto, criado no interior, no sertão ou no cerrado,
quando pega no lápis e é obrigado a garranchar o a-e-i-o-u, muitas vezes acaba desistindo
do aprendizado de alfabetização porque suas mãos calejadas pelo serviço pesado
do campo não suportam esse tipo de esforço.
Esta reflexão
estendo aos educadores e legisladores. Não seria interessante priorizar em pelo
menos 90% o ensino da leitura aos adultos analfabetos? Sabendo ler, com certeza
saberão pegar ônibus, ler avisos, fechar negócios conscientes – se não
entenderem algumas palavras poderão ver o significado lendo-o num dicionário.
Muitos migrantes solicitam e até pagam para pessoas escreverem cartas à sua
família (o filme “Central do Brasil” mostra bem isso). Sabendo ler terão
condições de conferir se aquilo que ditou foi escrito, bem como, lerem a
resposta, eles mesmos, sem necessidade de um alfabetizado. Aprender a escrever
deve ser sua opção, dependerá de sua necessidade, seu esforço.
Fica a
pergunta:
Alguém que só
saiba ler, pode ser
considerado ANALFABETO?
Hélio Nagado
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