O taxista Tião e a senhora Alzira
Na esquina do
quarteirão de um grande supermercado de bairro da classe média de São Paulo
existe um ponto de táxi no qual trabalham aproximadamente 20 motoristas de
praça.
Entre os
motoristas do ponto, Tião se destaca pela simplicidade e simpatia que trata
colegas, clientes ou qualquer pessoa que com que ele interaja.
Semanalmente, Alzira,
uma senhora de aproximadamente 80 anos, faz compras no supermercado e solicita um
táxi do ponto para levá-la em casa.
Para a maioria
dos taxistas, atender uma corrida da Alzira era sinônimo de prejuízo e perda de
tempo. Afinal, além da residência de Alzira ser muito próxima do supermercado,
ainda havia o “transtorno” de ajudá-la a levar as compras até o apartamento.
Assim, bastava
a Alzira sair do supermercado com as suas sacolas que misteriosamente desapareciam
todos os táxis do ponto.
Apenas Tião
permanecia e atendia Alzira com paciência e boa vontade. Muitas vezes uma
corrida de R$ 10,00 demorava mais de 40 minutos porque Tião fazia questão de
levar as compras até o apartamento e, dependendo do caso, auxiliava Alzira com
pequenas tarefas, como trocar lâmpadas ou carregar um objeto mais pesado.
Notando que
somente Tião a atendia, Alzira passou a procurá-lo exclusivamente, programando
dia e horário da corrida.
Tião era visto
pelos colegas como o otário. Os que se achavam mais espertos faziam questão de
debochar do motorista de boa vontade.
Teve um dia
que um dos colegas de Tião fez questão de dizer para ele:
- Hoje,
enquanto você estava com a velha, peguei uma corrida com um gringo e ganhei R$
300,00!
Feliz pela
sorte do colega, Tião respondeu:
- Que ótimo! O
ganho de um dia bom em uma hora.
Vendo que Tião
não se incomodou com o comentário e ainda o felicitou, o “sábio” colega entendeu
por bem dar uma dica ao interlocutor:
- Deixa de ser
trouxa Tião! Não está vendo que a velha está abusando de você? Podia ganhar
muito mais se não ficasse perdendo tempo com gente como ela.
Sem se abalar,
mas querendo por um fim no assunto, Tião declarou:
- Estamos aqui
para atender quem nos procurar. Aguardo a minha vez e respeito a fila, sem
prejudicar ninguém. A corrida que tiver que ser minha será. Não importa o
valor. Nossa função é atender bem o cliente, levando-o em segurança para o
destino solicitado.
Depois desse
dia o assunto não foi mais abertamente discutido, mas bastava Tião sair para
atender a senhora Alzira que os comentários voltavam.
Meses depois o
telefone de Tião tocou:
- Boa tarde!
Gostaria de falar com o Tião:
Tião
respondeu:
- É ele quem
está falando.
O homem do
outro lado da linha prosseguiu:
- Tião, meu
nome é Antônio. Você não me conhece. Sou filho da senhora Alzira, sua cliente
do supermercado.
Com o seu
jeito amistoso, Tião indagou:
- Pois não seu
Antônio. Tudo bem com a sua mãe? Como posso ajudá-lo?
Antônio
respondeu:
- Minha mãe
está ótima. Aliás, muito obrigado pela paciência que tem com ela. Mas falando
de negócios, sou diretor de um banco e precisamos de um taxista de confiança. Durante
os próximos dois anos teremos corridas constantes para outros municípios.
Gostaríamos de contratar os seus serviços nesse período.
O negócio foi fechado. Com a remuneração
decorrente do contrato, Tião pagou as dívidas e trocou de carro.
Graças ao seu
carisma e disposição para ajudar, na época que prestou serviços ao banco Tião
conquistou novos clientes.
A demanda de
trabalho passou a ser tão intensa que raramente Tião aparece no ponto. Nas
poucas vezes que isso acontece é para atender a senhora Alzira.
-
Esse daí não aprende mesmo! Ingênuo desse jeito nunca vai melhorar de vida.
Rafael Ferreira da
Silva[1]
[1]
O autor é casado e pai de uma menina, advogado em São Paulo e tem outros contos
para compartilhar.
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