Ivan e o corcunda
Ivan
era visto por todos como um homem de sorte. Saúde de ferro, jamais foi vítima
de um acidente, bem sucedido nos negócios e na vida amorosa. Era a
personificação de Gastão, o primo do Pato Donald.
Para
não dar chance ao azar, a pitoresca figura sempre tomou alguns cuidados. Bate
na madeira três vezes quando fala ou escuta sobre algo ruim. Em sua residência
tem uma ferradura acima da porta da sala, uma bíblia aberta no Salmo 91 sobre a
mesa, a escultura de um elefante com o traseiro voltado para entrada da casa,
várias Espadas de São Jorge plantadas no quintal e na cômoda do quarto é
possível ver um Buda sorridente sentado sobre uma pilha de moedas.
Quem
o conhece jura que jamais viu ou imagina que Ivan seja capaz de passar por
baixo de uma escada, marcar compromissos em uma sexta-feira 13, deixar uma
pasta ou mochila no chão, abrir guarda-chuva em casa, quebrar um espelho ou
cruzar na frente de um gato preto.
Na
época da Copa do Mundo, Ivan veste a mesma cueca que usava quando a seleção
brasileira foi campeã em 1970, na sua carteira nunca falta uma nota de 1 dólar
e um trevo de 4 folhas, seu chaveiro é um pé de coelho, somente entra nos
lugares com o pé direito e pelo menos uma vez por semana faz questão de tomar
banho de sal grosso.
A
única frustração de Ivan é que ele nunca havia passado a mão nas costas de um
corcunda.
Porém, Ivan
nunca havia encontrado um corcunda e não sabia onde achar alguém com essa
característica. E olha que não foi por falta de procurar. Sempre que tinha um tempo
sobrando, a pitoresca figura dava um jeito de entrar em clínicas ortopédicas
para achar alguém com a mesma deformação do famoso personagem da Catedral de
Notre Dame.
Recentemente,
enquanto assistia uma cerimônia de casamento, Ivan avistou um pequeno corcunda
que estava do outro lado da Igreja vestindo um terno verde escuro. Ele não
conseguia mais prestar atenção no evento. Sua atenção estava toda voltada para
aquela figura que tanto tempo esperou encontrar.
O problema é
que a igreja estava lotada. Enquanto não terminasse a cerimônia era impossível
chegar perto do corcunda. Sem qualquer pudor, estrategicamente Ivan se colocou
na entrada da Igreja e esperou. Uma hora os convidados teriam que sair.
Fim da
cerimônia, pela porta da igreja passaram os noivos, padrinhos, convidados,
penetras, mas nada do corcunda. Onde estaria aquele infeliz? Ivan começou a
suar frio e sentia dores no estômago diante da possibilidade de ter perdido sua
chance.
A frustração
deu lugar a um novo momento de euforia quando avistou o corcunda entrando no
carro de um dos padrinhos. Ainda bem, ele iria à festa!
Chegando ao
salão, Ivan não queria saber de mais nada. Cumprimentar os noivos,
confraternizar com os amigos, comer, beber, dançar, tudo isso perdeu a
importância. O pensamento estava fixo em
encontrar o maldito.
De repente,
ele vê um volume verde escuro em uma mesa entre os convidados próximo de onde
estava. Esticou o braço e apalpou. Não era as costas do corcunda como imaginou,
mas as nádegas de uma senhora que estava inclinada procurando a bolsa que havia
caído. O pedido de desculpas não conteve a indignação da vítima daquele
ultraje. Em função do alvoroço foi sutilmente orientado pelos seguranças a se
retirar da festa.
Apesar da
vergonha, Ivan não sairia sem alcançar seu objetivo. Ficou na rua, tomou o
cuidado de checar que não haviam outras saídas além da porta onde as pessoas
deixavam seus carros com os manobristas e pacientemente aguardou.
Chovia
torrencialmente e Ivan não tinha uma proteção. O vento aumentava a sensação de
frio que, com a fome e sede que apertavam, faziam da espera uma tortura atroz.
Eram quase 4
horas da manhã quando finalmente o corcunda saiu
do salão de braços dados com uma bonita moça, curiosamente uns 30 centímetros
mais alta que ele.
Na maior cara
de pau, Ivan caminhou rápido e de surpresa abraçou fortemente o corcunda,
dando-lhe demorados tapas nas costas, como se fossem velhos amigos.
Depois de se
desvencilhar, o corcunda fulminou o sujeito impertinente com um severo olhar de
reprovação, mas conteve o ímpeto de devolver o ato com uma agressão. Por
experiências anteriores sabia que era mais um imbecil que queria por a mão na
sua deformidade.
Sem se
importar com o que o corcunda pensava, Ivan foi para casa feliz da vida e
dormiu realizado.
Acordou bem
humorado e assobiando entrou no carro para ir trabalhar. Não andou cinco
quarteirões e o veículo quebrou. Ligou para o guincho, mas a seguradora disse
que naquele dia o socorro demoraria para chegar. Resolveu prosseguir andando.
No caminho foi assaltado. Sem dinheiro e celular, achou melhor voltar para
casa. Ao chegar descobriu que a mulher o traia com o vizinho. Desolado, saiu
para a rua e foi atropelado. No hospital contraiu uma infecção e levou meses
para receber alta. Sem o olho do dono, os negócios degringolaram.
Para piorar, o fundo de reserva foi desfalcado pelo sócio que desapareceu,
assim como a sorte de Ivan.
Rafael Ferreira da
Silva[1]
[1]
O autor é casado e pai de uma menina. Mora em São Paulo e é advogado. Nas horas
livres gosta de contar uns causos que testemunhou, ouviu ou imaginou.
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