Rômulo, Heloísa e a Jabiraca
Depois
de juntar dinheiro durante os últimos três anos, Rômulo finalmente tinha
condições de comprar um carro usado à vista.
Vendido
por uma pessoa de confiança, amigo do primo do cunhado do vizinho do pai de
Rômulo, o carro escolhido foi um Gol, branco, 1984, refrigerado a ar,
popularmente conhecido como “batedeira”. Os amigos de Rômulo apelidaram o carro
de Jabiraca.
Bem
conservado, equipado somente com peças originais, a Jabiraca funcionava muito
bem e proporcionou a Rômulo uma liberdade até então jamais imaginada.
Graças
à Jabiraca, Rômulo virou o chofer da casa, passou a ser presença certa em
festas, churrascos e demais reuniões organizadas pelos amigos, ajudava no
transporte de bens e pessoas nas atividades da Igreja e começou a ser visto com
outros olhos por algumas garotas. No entanto, Rômulo tinha olhos apenas para
Heloísa, com quem flertava fazia algum tempo.
Heloísa era
uma garota que Rômulo conheceu no ônibus quando ia do trabalho para a escola.
Ela era simpática, conversava bastante e alimentava os galanteios que recebia
de Rômulo, porém quando era convidada para sair, sempre recusava o convite com
alguma desculpa que não fazia sentido.
Em um desses
encontros no ônibus, Rômulo e Heloísa conversavam quando ele perguntou:
- O que vai
fazer depois da aula na sexta-feira?
- Tenho que
voltar direto para a casa. Preciso levar minha avó na musculação!
- Que pena.
Hoje vou sair mais cedo e estava pensando em lhe convidar para sairmos. Faz
algum tempo que comprei um carro e podia te levar para aquele barzinho que está
fazendo o maior sucesso.
- É mesmo!?!?
Acabo de lembrar que minha avó está com os bíceps distendidos e não deve ir
para academia hoje.
Um pouco mais
tarde, Rômulo encostou a Jabiraca em frente à casa de Heloísa e buzinou.
Heloísa saiu toda sorridente e saltitante de casa, mas quando viu Rômulo dentro
do Gol branco sua fisionomia mudou.
Sem perceber o
semblante de Heloísa, Rômulo desceu do carro abriu a porta para ela, e disse
todo entusiasmado:
- Nossa você
está linda! E aí? Gostou da Jabiraca?
Heloisa
sorriu, entrou no carro e, enquanto Rômulo dava a volta para entrar pela porta
do motorista, sussurrou:
- Que
lata-velha! Como ele tem coragem de me convidar para sair em um carro desses?
Pelo visto a
Jabiraca não gostou do que ouviu. Quando Rômulo girou a chave na ignição, o
carro não ligou. Rômulo tentou mais algumas vezes, mas nada. Ele saiu, abriu o
capô, examinou o motor, testou a parte elétrica, no entanto não havia
explicação para aquele apagão. Sem saber o que fazer, pediu desculpas para
Heloísa e chamou um guincho. Misteriosamente,
foi só ela entrar em casa que, no primeiro teste
do mecânico, o carro voltou a funcionar.
Apesar do
contratempo, o obstinado Rômulo voltou a convidar Heloisa para sair. Os outros encontros
foram bem sucedidos e eles começaram a namorar. Ocorre que a relação entre
Heloisa e Jabiraca começou mal e dava sinais de que não se resolveria.
Coincidência ou não, sempre que a Jabiraca falhava a Heloisa estava junto.
Teve uma vez
que eles foram encontrar as amigas da Heloisa em uma pizzaria. Terminada a
reunião, Rômulo se ofereceu para levar as moças para casa. Parece que a
Jabiraca não gostou do ato de simpatia do dono para com as amigas de sua rival
e resolveu morrer. Só funcionou depois que todos saíram do carro em uma noite
chuvosa e tiveram que empurrar para pegar no tranco.
Em outra
oportunidade, quando voltavam de uma festa, tudo corria bem até que Heloisa
perguntou a Rômulo se ele não pensava em trocar de carro. Imediatamente o
veículo começou a trepidar. O pneu havia furado. O pior é que uma das porcas do
parafuso da roda estava espanada e Rômulo não conseguiu fazer a troca do pneu sozinho,
tendo que esperar a chegada de um borracheiro chamado ao local. Enquanto sofria
para tentar girar a porca espanada, Rômulo teve que ouvir um espírito de porco
dentro de uma BMW parar perto de onde o carro estava e falar com a Heloisa:
- Se você
estivesse em um desses não estaria passando por isso lindona!
Rômulo só não
jogou a chave de roda na BMW porque não deu tempo. O engraçadinho percebeu a
ameaça e arrancou dali.
Mesmo com
esses e tantos outros contratempos proporcionados pela Jabiraca, Rômulo
relutava em se desfazer do carro. Primeiro porque era apaixonado pela
Jabiraca. A troca por um modelo mais
novo não era viável, pois Rômulo estava juntando dinheiro para casar com Heloisa.
Além do mais, ficar sem carro era uma hipótese que sequer podia ser cogitada.
A gota d´água
ocorreu no dia do casamento de Rômulo e Heloisa. Por questões financeiras, o evento
se restringiu à cerimônia civil e a uma reunião para poucos convidados
organizada na casa da irmã de Heloisa, que ficava a uns 50 quilômetros do
casamento.
Após sair do
cartório, com a noiva e os sogros dentro da Jabiraca, Rômulo dirigia rumo à
reunião. Quando estava parado no pedágio, com dois carros à sua frente em
relação à cabine de cobrança, a Jabiraca apagou e não voltava a funcionar.
Rômulo foi obrigado a passar pelo pedágio empurrando o carro, com a ajuda dos
sogros e com Heloísa vestida de branco, com as
mãos no rosto morta de vergonha.
Transtornado,
Rômulo parou o carro no acostamento, chutou, esmurrou e xingou a Jabiraca. Não
entendia como um veículo que lhe deu tanta alegria o traíra daquela forma,
justamente no dia mais importante da sua vida. Decidiu que iria se livrar dela
quando voltasse da lua de mel.
A Jabiraca
ficou estacionada em frente à casa de Rômulo. Porém, quando voltaram da viagem, o carro não estava mais lá. Tudo indica que foi
furtada. Rômulo nem poderia ser acusado de ter facilitado o crime, uma vez que
não tinha seguro e sofreu um significativo prejuízo financeiro.
Há quem diga
que a Jabiraca não foi surrupiada, mas fugiu por não concordar com a escolha
amorosa de Rômulo.
Pelo visto a antipatia da Jabiraca pela Heloisa não era à toa. O
casal logo se separou e hoje Rômulo vive sozinho, sem a Heloisa e a Jabiraca.
Rafael Ferreira da
Silva[1]
[1]
O autor é casado e pai de uma menina. Mora em São Paulo e é advogado. Nas horas
livres gosta de contar uns causos que testemunhou, ouviu ou imaginou.
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